Diretor Wes Anderson acerta mais uma vez em seu novo filme “O Grande Hotel Budapeste”.
Bilhete de bagagem. Um advogado corre, entra em um museu. “Faltam 15 minutos para a exposição fechar”. Ele olha para trás, alguém o persegue. “Faltam 14 minutos para a exposição fechar”. Ele corre. Sobe as escadas. Vira uma esquina. Entra em um quarto. Atravessa a janela. Desce. Corre. Encontra os fundos. A porta de correr arranca os dedos de sua mão apoiada no batente. O assassino a empurrou. Os quatro dedos caem no chão do lado de fora da porta.
A narrativa de Wes Anderson é singular. Como em “Viagem à Darjeeling”, somos levados por aventuras incomuns, em cenários e personagens pitorescos em “O Grand Adrien Brody, Willem Dafoe, Mathieu Amalric, Saoirse Ronan, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Tilda Swinton, Owen Wilson, Tom Wilkinson, Edward Norton, Léa Seydouxsurgem e Bill Murray formam o elenco surpreendente do filme. Surpreendente, pois você não espera encontrar todos eles e em papéis completamente destoantes do restante de suas carreiras. Com destaque para Dafoe, que representa um vilão excepcional.
O filme é narrado por um velho escritor (Tom Wilkinson / Judy Law), que conta sobre o tempo que passou no Grande Hotel Budapeste, quando conheceu o dono do local (F. Murray Abraham), que lhe contou a história de como virou dono do lugar. “Veja, ainda existem fracos vislumbres de civilidade restantes nesse bárbaro matadouro que já foi conhecido como humanidade.” A frase, repetida durante a trama, descreve Monsieur Gustave (Ralph Fiennes), gerente do hotel. Apaixonado por senhoras “ricas, velhas, inseguras, vaidosas, superficiais, loiras e carentes”, dedica sua vida à cortejá-las e a organizar o hotel. Um personagem doce, educado e ingênuo, contraditório ao meio que vive. Ao lado dele nessa história está Zero (Tony Revolori), o novo mensageiro do local. Os dois tornam-se cumplices e amigos, embora esteja quase sempre claro que outro é o empregado do um.
Tudo começa quando Gustave recebe a herança de uma das senhoras por quem era apaixonado. A família dela não gostou nem um pouco da leitura que o advogado fez do testamento e acusam-no de ter assassinado rica recém-falecida. Antes de ser prezo, Gustave e seu ajudante roubam o quadro “O menino da maça” da casa, antes que sua numerosa família desapareça com tudo.
Por entre cores vibrantes do cenário e do figurino, ações e reações inusitadas, humor negro e comédia, em um enredo metalinguístico, somos levados aos altos e baixos da saga dos protagonistas. Em busca da liberdade, do amor e do “Menino da Maça”, Monsieur Gustave e Zero percorrem o gelado país do leste Europeu: Zubrowka. Sem nunca mencionar diretamente, a história tem como pano de fundo o início de uma Guerra, propositalmente. O cenário e o protagonista evidenciam sua caracterização em meio à Guerra, deixando claro para os espectadores a contraposição entre as gentilezas de Gustave e o restante do mundo.
Para os acostumados aos habituais hollywoodianos, “O Grande Hotel Busdapeste” é refrescante. Você pode assisti-lo e somente se divertir com suas descontinuidades e assimetrias da realidade, ou pode refletir sobre um tempo que não existe mais, sobre os “fracos vislumbres de civilidade restantes nesse bárbaro matadouro que já foi conhecido como humanidade".