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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Como você descobriu a história?


A partir do texto Uma criança constrói a história de Phillipe Airés veio a inspiração...




Como com o autor, vivi em um oásis durante muito tempo. As histórias do passado ou de meu próprio tempo não faziam parte de minha vida. Em casa o jornal era ligado na televisão todos os dias, a voz grave e alta do meu pai fazia comentários sarcásticos e críticos todos os momentos, com faz até hoje. Eu e meu irmão perguntávamos o que aquilo queria dizer, por que ele achava aquilo uma bobagem, ou uma mentira deslavada. Ele explicava. Mas mesmo assim, não fazia parte de mim. Eu perguntava só pra ouvir a voz do meu pai, não porque realmente me interessava o que acontecia além da porta de casa. Alguns fatos históricos influenciam diretamente em nossa vida, por mais que não pensamos em história. Quando era criança o fato mais importante foi o Plano Real. Eu achei aquilo muito estranho. Como um papel podia valer alguma coisa e depois não valia nada e, ainda ia ter outro papel que ia valer alguma coisa; pior ainda, 2000 do papel anterior era a mesma coisa que 1 do papel de agora...  O dinheiro é mesmo uma coisa fascinante.
A história de antes demorou a fazer parte de minha vida. A história do Brasil de meu pai e minha mãe influenciou diretamente em suas vidas. Um mundo completamente diferente do meu e, que não tenho a mínima vontade de viver. Os anos da ditadura são uma página em branco nos causos de meu pai; mineiro que só ele, vive contando suas histórias de infância, de adolescência, de faculdade, de seu primeiro trabalho e etc. Mas os anos 60 e 70 têm lacunas que não ouso preencher. Foi só quando estudei na escola o período militar que falamos sobre ele em casa. Meu pai respondeu todas as minhas perguntas históricas, sem dizer uma palavra de suas próprias vivências, mas gritando suas próprias conclusões. Da segunda vez que estudei o período meu pai já não morava em casa e minha mãe contou a versão dela. Uma das poucas pessoas que não sofreu tanto assim, sempre que tocamos no assunto ela repete: “Hippie era coisa de rico, eu estava muito ocupada trabalhando para ajudar meu pai a comprar batatas”. E então ela passava a falar de história do meu pai. O que descobri em fim, foi que meu avô paterno era comunista e que ele e meu pai foram presos juntos. Nada mais.
A história dos meus avós me fascinou desde pequena. Por ter descendência armênia me sentia diferente da maioria dos meus colegas e amigos. Era um mundo estranho, tão difícil de achar no mapa, diferente da Itália e da Espanha, descendência da maioria absoluta. Além disso, a história dos bisavôs é um pouco turva, ninguém sabe direito como tudo aconteceu. Pra variar, tudo começou com a guerra! A guerra dos armênios e os turcos foi sanguinária. Os armênios foram dizimados e expulsos de sua terra. Meu bisavô lutou nessa guerra como chefe de revolução. Depois que as cidades foram invadidas pelos turcos, os armênios se escondiam em sua terra que tanto conheciam. No meio da noite desciam para a cidade e matavam o turcos enquanto eles dormiam. Na volta para o esconderijo eles faziam a contagem de quantos turcos haviam matado; a contagem era feita com as orelhas arrancadas daqueles que cada um matou. Meu bisavô foi descoberto e resolveu fugir. A primeira versão da história é que ele pegou sua mulher, minha bisavó e fugiram de barco para a Europa, passaram pela França e depois vieram para o Brasil. A segunda versão é que meu bisavô roubou minha bisavó de seu então marido enquanto fugia. Até hoje ninguém sabe se o meu avô nasceu no Brasil ou na França.
A primeira vez que me senti vivendo a história foi em 11 de setembro de 2001. Pela primeira vez na vida eu vi na TV e no jornal, ao vivo, algo que eu pensava que só veria nos livros de história, na boca dos mais velhos, em um filme de Hollywood. Foi um dia inesquecível para todos de minha geração. Com certeza para todos nós foi a primeira vez. A gente dizia: “Que horror... Nossa, nossos filhos vão estudar isso na escola”.  A partir dai a história foi mais presente em minha vida. Pensando hoje, entendo que é preciso ter maturidade para perceber como a história do mundo pode de fato influenciar em nossas vidas. Mas como também ela chega para nós de forma deturbada, irreal, recortada segundo os critérios do poder, da política. Quantos fatos que não sabemos, ou que sabemos metade da história? Mesmo dentro da escola a história que aprendemos é na verdade uma releitura de nosso passado. Acredito que fato histórico que mais representa essa questão é a independência do Brasil. Na escola temos uma versão idealizada do grito de independência, uma versão “bonitinha”. Eu só descobri a “verdade” - que não sei se é verdadeira mesmo – nas aulas do cursinho para o vestibular. A sensação de que somos enganados aumenta muito quando saímos da escola. As lacunas da história foram se preenchendo nesse período; a formação da Alemanha, a URSS e sua ditadura e etc. Eu descobri a história depois da escola.

A referência do texto...

ARIÉS, Philippe. Uma criança descobre a história. In. _______ O tempo da História. Lisboa: Relógio d’Água, 1992.